O barco do galpão
Era um barco de papel muito delicado e como todas as coisas delicadas, fadadas a serem esmagadas.
Dobra a folha ao meio, dobra mais uma vez. Faz duas orelhas para o meio. Sobe a parte de baixo. Agora dobra os quatro lados e dobra a parte de baixo novamente; parece um triângulo. Agora dobra na outra direção e faz um triângulo menor. Abre e solta as extremidades. Barco pronto! Estava pronto.
Azul, vigoroso, pronto para enfrentar tempestades, flutuar no mar, abrir caminho entre as ondas. As velas bem-feitas não deixavam dúvidas, nem a desejar. Preparadas para tempestades e fúrias divinas.
E não estava sozinho, tinha a companhia de inúmeros outros barquinhos, vermelhos, amarelos, verdes. Alguns pendurados por barbantes, outros enfileirados, prontos para a guerra, ansiosos para afundar outros navios.
Os maiores estavam em cima de um balcão e os menores espalhados nas mesas de vidro, com pés de ferro branco, tão adornados quanto enferrujados.
Ninguém sabia quem os tinha feito, provavelmente numa tarde de calor, preguiçosa. Entre textos e leituras, foram criados. Delicados, bem dobrados.
Era também uma noite quente quando aquelas pessoas chegaram e se sentaram às mesas.
Os barcos estavam expostos de maneira esplendorosa. Alguns navegavam calmamente sobre as mesas de vidro e outros voavam enganchados em barbantes ou sisal.
Já o barco azul estava lá em destaque, valente, em cima da bancada. Não reparou quando algumas pessoas reclamaram que a mesa balançava. Afinal, o comentário não tinha nada a ver com ele, então não prestou atenção.
A mesa rangia ferozmente. Estava cansada de aguentar aquela gente que bebia muito, falava demais e se perguntava quando poderia voltar ao sossego do antiquário em que havia sido comprada.
E lá ia o barquinho, livre, firme, navegando. Até que duas palermas, que desconheciam a situação viva, vigorosa e brilhante do barco, o pegaram e começaram a analisar o seu tamanho no ar. Ele tinha o tamanho ideal! Comemoraram!
O barco ficou confuso, ainda tinha algumas balas de canhão para afundar outras embarcações, e aquelas pessoas não o soltavam. No entanto, não resistiu, até gostou da atenção. Uma das idiotas passou os dedos em suas velas e ele estremeceu. Ela desdobrou um pouco o papel e isso causou uma sensação até que boa no barco. A sensação era boa, sem dúvida.
Até que aquela mão que antes fazia carinho, o colocou no chão frio, deitado de lado. Tombado em uma posição que não era confortável para ele. Ainda tentou dialogar, se virar, não conseguiu.
Mas o que estava acontecendo? Ainda tentava entender, quando algo pesadíssimo o rasgou. Rasgou suas velas, partiu seu casco azul, feito de papel, dobrado de maneira cuidadosa. A dor, o último pensamento foi a dor.
A perna de uma mesa desequilibrada o rasgou em dois. Ele sentiu o gosto da ferrugem do que o estava destruindo. Não fora queimado ou atacado por outro barco.
Destruído, feito de calço de uma mesa que balançava. Um Nivelador, não mais um Navegador.
Sua existência negada, sua consciência esquecida, suas velas arrebentadas por pessoas que queriam tomar café sem derramar. Sonhos de guerra e tempestade desfeitos numa noite, em um galpão.
Fernanda Águeda Coelho
Enviado por Fernanda Águeda Coelho em 21/09/2026